quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Medicina – Arte ou Ciência?


por Dr. Alexandre Feldman

A palavra medicina vem do latim, ars medicina, que significa “arte de curar”. 

Apesar disso, a arte é deixada de lado na definição dos dias atuais. O Grande Dicionário Huaiss da Língua Portuguesa, por exemplo, afirma que a medicina é “considerada por alguns uma técnica e, por outros, uma ciência”. O Dicionário Oxford da Língua Inglesa define medicina como “ciência ou prática do diagnóstico, tratamento e prevenção das doenças”. 

Uma coisa é certa: a prática da medicina não poderia ser considerada uma ciência. Para muitos médicos, a medicina se tornou simplesmente uma coleção de conhecimentos e habilidades de ordem técnica, sejam eles farmacológicos (prescrever um medicamento correto), clínicos (realizar um bom diagnóstico), cirúrgicos (fazer uma operação complexa), radiológicos etc. Médicos podem salvar muitas vidas, reduzir o sofrimento e melhorar a qualidade de vida de seus pacientes – mas se for ignorada a arte necessária para a boa prática da medicina, o médico poderá ter dificuldade em perceber seu paciente como um ser humano e não “uma doença”, e poderá ter dificuldade em pensar criativamente sobre opções de tratamento. Poderá privilegiar o conhecimento em lugar da sabedoria e simplesmente não questionar aquilo que lê nos periódicos científicos, ouve nos congressos, ou recebe dos representantes farmacêuticos que o visitam.

Não se ouve falar em “arte” da medicina durante os anos de aprendizado. Não se estuda a “arte” da medicina nos livros-texto e periódicos de prestígio.

Mas ainda assim, a arte está presente e transcende toda a ciência quando, por exemplo, um paciente em seu leito de morte olha para o médico e pergunta “– O que eu faço agora?”. A resposta irá, com toda certeza, diferenciar a medicina como arte nobre e atemporal, de uma prática ignóbil e sem alma.

Estará a medicina como arte de fato ultrapassada, esmagada pela técnica, tecnologia e “prática do diagnóstico, tratamento e prevenção das doenças”?

Para compreender a resposta, vamos anlisar o que envolve uma arte. Toda arte, não importa em que esfera e em que tempo da história, envolve maestria, individualidade, humanidade e moralidade.

Maestria envolve mais perícia que simplesmente experiência. Mais sabedoria que meramente conhecimento. Mais criatividade para interpretar aquilo que estaria realmente por trás da doença, pois pode não ser tão óbvio quanto aparenta. E tudo isso sem contar a capacidade do médico para fazer um diagnóstico, tratamento ou cirurgia impecáveis. Maestria envolve humildade para ouvir, aprender, estudar, questionar e mudar de opinião. A medicina não deve ser encarada como commodity – e o mesmo vale para os pacientes!

Aliás, compreender a individualidade do doente é parte integrante da arte da medicina. Há dois mil anos o professor romano Aurélio Cornélio Celso ensinou, em sua obra-prima De Medicina, que o médico deve aplicar o conhecimento geral, comum a todos os casos, enquanto pesquisa, em seu paciente, por características individuais que possam ir contrários aos “dogmas” pré-estabelecidos. Diz o educador: “[Ao mesmo tempo que] Existe não somente uma grande variedade de doenças, [existe] também um grande número de peculiaridades num mesmo indivíduo, e [assim,] uma pessoa que tenha sido tratada sem sucesso com os remédios aparentemente apropriados, poderá ter sua saúde restaurada por remédios contrários.” (Aurelius Cornelius Celsus, De Medicina, Liber Primus, Prefatio). A atenção à individualidade do paciente faz toda diferença na qualidade do exercício da medicina.
Reconhecer um equilíbrio entre o “conhecimento geral, comum a todos os casos”, e a individualidade, significa admitir que as diretrizes terapêuticas uniformes da assim chamada “medicina baseada em evidências” (adorada pelos planos de saúde e burocratas) não deveriam ser definitivas, cabais, permanentes e irrevogáveis. Significa aceitar que o médico deve ter respeito às estatísticas sem, contudo, ser tacanho a ponto, por exemplo, de não conseguir responder adequadamente ao apelo “– O que eu faço agora?”, acima.
A resposta adequada a esse apelo, e a todos os demais desafios da medicina, remete a outros dois princípios: o da humanidade e moralidade. Esses princípios não medem o que os médicos sabem, mas sim quem eles são. O médico é humano quando consegue se colocar no lugar do paciente e oferecer a mesma competência, delicadeza e devoção que ele mesmo gostaria de receber naquela situação. Isso de modo algum significa se abalar pelo sofrimento do paciente a ponto de afetar seu raciocínio, mas sim criar uma conexão com o ser humano por trás da doença. Embora essa empatia seja muito difícil de explicar ou mensurar, ela é, na minha opinião, imprescindível para a cura do paciente. Infelizmente, temos visto bem mais empáfia que empatia nos dias atuais, causada, provavelmente, por excesso de títulos acadêmicos e falta de humanidade.
Finalmente, temos o aspecto moral. O paciente que procura o médico está vulnerável em uma série de aspectos. Em função da necessidade, é confiado ao médico grande parte do controle e acesso à privacidade, tornando a parceria médico-paciente uma situação assimétrica que exige integridade por parte do médico. O próprio Juramento de Hipócrates, em resumo, diz: “Não prejudique; Fale a verdade; Não force situações; Guarde segredos.
Aliás, o Juramento de Hipócrates, que todo médico faz no dia da formatura, deveria ser muito melhor ensinado a fim de que se reconhecesse a verdadeira santidade desse momento para essa profissão que jamais poderá deixar de ser uma arte: a medicina.

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