sexta-feira, 31 de outubro de 2008

75- SEQUESTRO DA AMÍGDALA


Crimes Neurológicos - Seqüestro de Amídala
Abril 02/2008


As amígdalas são duas estruturas em forma de amêndoas (como as da garganta), localizadas uma de cada lado do cérebro. Foram uma bonita herança da nossa passagem pela forma réptil e podemos dizer que são o nosso primeiro mecanismo de defesa. É o que chamaríamos de instinto de sobrevivência”.

Como funciona?

Sempre ao menor sinal de perigo, a informação vai para a amígdala e logo em seguida para o neocórtex, que é responsável por “contar até 10″ e analizar a situação.
Normalmente a amígdala é responsável pelo “não sei o que me deu!”, que é aquele momento que temos reações repentinas a situações inesperadas. Isso vale tanto para agressões físicas como verbais e ou emocionais.

Sabe aquela frase que te escapou durante uma discussão e que mal você falou e depois se arrependeu? Sabe aquele soco que você deu no seu amigo quando ele tentou te assustar? Sabe aquele salto pra trás quando aquele carro tirou uma fina naquele outro carro bem na sua frente?
Esse tipo de reação tem nome:

Seqüestro de Amídala

Isso se verifica sempre que a amídala toma conta da situação antes da informação chegar ao neocórtex. Nós agimos sem pensar, e só depois ficamos com as pernas bambas.
Na Natureza os mecanismos de defesa pecam sempre por exagero. É melhor ser exageradamente protetor do que estar demasiadamente vulnerável. A amígdala faz isso, e tenta nos proteger física e emocionalmente.
Assim, aquela resposta que você deu sem pensar quando estava “cega de raiva” nada mais foi do que o seu cérebro tentando te proteger emocionalmente.

Conte até dez
Por Eugenio Mussak

Thomas Jefferson é freqüentemente citado com uma das figuras mais importantes da história americana. Autor da Declaração da Independência Americana e terceiro presidente dos Estados Unidos, Jefferson é apontado como grande negociador. Foi ele, por exemplo, que negociou com Napoleão Bonaparte a compra de uma área de terra que pertencia à França, chamada Louisiana, que foi anexada aos Estados Unidos, quase dobrando seu território da época.

A respeito de sua capacidade de lidar com pessoas diferentes e de chegar a bons acordos políticos, Thomas Jefferson construiu uma frase que vale por um tratado de relações humanas:

- “Se ficar zangado, conte até dez antes de dizer qualquer coisa. Se não tiver se acalmado, conte até cem; e se não se tiver acalmado depois disso, conte até mil”.

A grande simplicidade desse conselho é meio desconcertante, pois é desproporcional à verdade que ele contém. Muito já se falou sobre a dificuldade que as pessoas têm em manter a serenidade durante uma discussão ou um momento difícil. E muitos estragos já foram feitos por causa dessa dificuldade. Catástrofes no capítulo das relações humanas poderiam ter sido evitadas se as pessoas usassem a prerrogativa do tempo entre o estímulo e a reação.

O chefe grita com um subordinado ao perceber um erro que este cometeu. O funcionário pede demissão no meio de uma tarefa por se sentir ofendido pelas as palavras mais duras do chefe. A mulher explode com o marido que chegou tarde antes de perguntar o motivo do atraso. O marido agride a mulher por não tolerar seu jeito de falar, sem se dar conta que ela está naquele período fisiológico que antecede a menstruação e altera o emocional.

Quem nunca foi sujeito ou objeto de uma situação assim? Pense sobre você mesmo e lembre quantas coisas você disse e se arrependeu depois, e quantas vezes foi atingido por palavras duras de alguém anteriormente tão doce e gentil.

Todas essas pessoas são protagonistas de histórias que poderiam ter tido um final mais feliz se elas apenas tivessem dado um tempo maior entre o impacto do descontentamento causado pelas palavras ou pelo comportamento de seu interlocutor, e a sua própria resposta ou reação. Ou seja, se tivessem contado pelo menos até dez.

Perdendo a cabeça

Seqüestrar pode significar retirar alguém de sua condição de liberdade e colocá-lo sob o controle de outro. O seqüestro ocorre à revelia do seqüestrado e este nada, ou pouco, pode fazer para evitar o acontecido, pois sempre é tomado de surpresa e não dispõe de tempo para se defender.

Pois bem, o cérebro humano com freqüência é palco de um tipo de seqüestro, que é a palavra utilizada para designar aquele momento em que a razão é superada por uma forte emoção em uma situação de grande dificuldade. Quando a razão recupera o controle, instantes depois, o estrago pode já ter sido feito.

A parte do cérebro humano responsável pela lógica, e que normalmente controla as decisões e atitudes das pessoas chama-se neocórtex. Trata-se daquela parte superficial, enrugada e cinzenta que forma a porção visível do cérebro quando se olha para sua figura inteira. O nome neocórtex significa algo como “casca nova” ou “parte superficial do cérebro, que surgiu por último durante o processo da evolução humana”.

Muito antes de o neocórtex surgir e definir o homem como um “ser pensante”, outras partes neurais já existiam, cumprindo funções de sobrevivência, tanto do indivíduo quanto de sua espécie. Sobre o tronco cerebral, responsável pelos instintos mais básicos formou-se o Sistema Límbico, o que dotou nosso ancestral de uma novidade: emoções. E foi dele que evoluiu o cérebro pensante – o neocórtex. Essa história tem pelo menos trezentos e cinqüenta milhões de anos, contando a partir da era dos répteis.

Pois bem, lá no meio do Sistema Límbico existe um componente chamado amídala, que não tem nenhuma relação com aquelas pequenas massas de tecido linfóide que existem em nossa garganta e que às vezes inflamam, principalmente nas crianças. Apenas o nome é o mesmo, pois ambas lembram “amêndoas” em sua forma.

A função da amídala cerebral é funcionar como uma espécie de alarme que desencadeia reações de proteção em caso de alguma emergência. Elas poderiam ser comparadas a um sensor de fumaça dentro de um prédio, que aciona por conta própria os sprinklers, aquelas pequenas duchas espalhadas no teto das modernas construções, para conter um possível fogo. Afinal, onde há fumaça há fogo.

A amídala faz o mesmo. Ao perceber algum perigo, logo imagina o pior e trata de desencadear uma reação, que sempre será de fuga ou de agressão, pois é a maneira animal de manter a vida. A amídala recebe a informação do perigo antes que o neocórtex, por isso a reação começa antes mesmo que a pessoa tome consciência do perigo. E este muitas vezes não existe de verdade. É fruto da percepção rápida que nosso sistema de defesa tem, pois a natureza prefere errar por excesso de zelo.

Quando a amídala “toma conta” da situação e provoca reações às vezes desproporcionais ao fato, dizemos que aconteceu o “seqüestro” da razão. O neocórtex foi superado e controlado pela amídala por alguns instantes. Muitas vezes isso é bom, pois aumenta a velocidade da resposta diante de um perigo. É o que faz uma pessoa saltar ao perceber um carro aproximando-se em alta velocidade. A percepção do acidente não é cortical, racional, é amidaliana, instintiva. Depois é que nos damos conta do perigo que corremos, e então as pernas começam a ficar moles.

O problema é que a amídala interfere também quando há outro tipo de perigo, não físico, apenas emocional. Durante uma divergência de opinião, por exemplo, você pode perceber, repentinamente, uma espécie de perigo causado pelo rumo da discussão. Isso acontece de modo inconsciente e você não nota que está sendo tomado pelo sentimento de preservação de sua vida, ainda que seja a vida emocional. Sente apenas uma sensação de desconforto e medo, seguido da necessidade de agredir. De repente pode acontecer o seqüestro da razão e você terá, com certeza, uma reação violenta, por palavras ou atos, desproporcional ao fato que a causou. Faltou contar até dez...

Inteligência emocional

Se o seqüestro da razão que nos leva a reações violentas e desproporcionais, dizendo ou fazendo coisas que depois nos arrependemos, ocorre de maneira espontânea, comandada apenas por nossa biologia, podemos fazer algo para controlar esse fenômeno? Adianta contar até dez, cem, mil ou um milhão? Como saber quando temos que começar a nos preocupar com aumentar o tempo transcorrido entre as palavras da outra pessoa e as nossas próprias palavras?

Tudo indica que sim, que podemos aumentar o controle da lógica sobre a resposta emocional. Aumentar esse controle significa, na prática, aumentar a inteligência, aquela que é chamada de inteligência emocional.

Inteligência é um atributo que nos permite resolver equações matemáticas, escrever poemas, projetar edifícios, compor músicas e até dançar e praticar esportes. Em verdade são várias as nossas inteligências, e duas coisas sabemos a respeito delas: que elas são definidas geneticamente e que podem ser aumentadas através do uso.

Em outras palavras, as pessoas nascem com uma tendência natural, podendo ter mais facilidade para fazer contas do que para escrever poemas, por exemplo. Mas qualquer uma das funções da inteligência pode ser aumentada através da prática, do uso, do estímulo repetitivo. Você pode aprender a tocar violão, e isso significa um aumento em sua inteligência musical mesmo que você nunca chegue a ser um Andrés Segóvia.

Na atualidade, duas outras inteligências estão em alta: a interpessoal e a intrapessoal. A interpessoal é aquela que permite que você estabeleça uma relação adequada com as pessoas, e a intrapessoal faz com que você conviva bem com você mesmo.

A inteligência interpessoal é composta por pelo menos quatro características: capacidade para compreender as pessoas, facilidade para fazer e conservar amizades, habilidade para resolver conflitos e aptidão para exercer liderança. A intrapessoal constrói uma autoapreciação saudável, com influência sobre o amor próprio. É nesse ponto que a ciência que estuda a inteligência começa a sentir falta de algo mais para explicar melhor ao homem como ele funciona.

Pense antes de agir

A teoria das inteligências ganhou espaço na psicologia após a década de setenta do século passado. Antes disso as atenções estavam voltadas para o que podia ser observado por fora: o comportamento – daí o behaviorismo. A ciência cognitiva (ciência do pensamento) veio para propor uma maneira de interferir no comportamento “de dentro para fora”. Estava estabelecida a dobradinha pensamento-comportamento. Mas faltava mais um parceiro nesse time: o emocional.

Foi na última década do século que as emoções começaram a tomar mais espaço na discussão sobre a alma humana. Em especial, a inteligência das relações (a interpessoal) não estava completa sem a análise das emoções que mediam os contatos humanos. Ao colocar a emoção no palco das discussões sobre como as pessoas se comunicam estamos explicando melhor como as relações se processam, ao mesmo tempo em que o termo “inteligência emocional” nos dá a certeza de que algo pode ser feito em seu favor.

É cada dia mais forte a percepção de que “inteligência” não é um conceito fechado, e que continuamos aprendendo sobre esse tema através de seu próprio uso. Em uma definição recente encontramos que “inteligência é a capacidade de utilizar os recursos mentais em favor da construção de um ambiente favorável”, o que implica no controle das emoções, do pensamento e do comportamento, exatamente nessa seqüência, e não na ordem inversa, como se queria anteriormente, no mundo behaviorista.

As palavras que utilizamos para transmitir as idéias são paridas pela razão, mas fecundadas pela emoção, pois, bem lá no fundo, o homem está sempre obedecendo à sua ambição biológica de buscar o prazer e de evitar o sofrimento. E essas necessidades são vassalas no reino onde os monarcas são as emoções. Sim, a comunicação humana é um fenômeno primordialmente emocional. A palavra pode ser racional, mas o tom da voz é emoção pura, e é ela que comunica de verdade.

Uma palavra elogiosa pode soar como uma ofensa grave se for pronunciada como tal. E a ofensa estará consumada. Portanto, à medida que discussões se acaloram que tons de voz sobem que faces se enrubescem que paciências se esgotam, cuidado. Está na hora de usar o tempo a seu favor. Demore mais para responder.

Quando alguém diz “conte até dez” está na verdade utilizando uma metáfora. O que realmente está querendo dizer é “pense antes de responder” ou “não se deixe dominar pela raiva”, ou ainda
“não estrague tudo deixando a amídala responder por você, pois ela não conhece todo o quadro, só a pincelada do perigo e do ódio”.

No mundo animal, a vítima é o bicho lento que não controla os movimentos. No mundo humano, a vítima é a pessoa rápida que não controla as palavras. Kant uma vez disse que “a paciência pode ser a fortaleza para os fracos, assim como a impaciência pode se transformar na fraqueza dos fortes”.

Situações não controladas, palavras mal postas, respostas impensadas resultam em perigosas conseqüências, seja pelo desconforto que produzem, seja pelo legado que deixam, pois uma vez proferidas, as palavras não voltam, assim como o flecha que sai do arco não mais pode ser detida.

Conta uma fábula que o pai de um jovem de temperamento difícil. Um dia deu-lhe um saco de pregos, um martelo e uma ordem: cada vez que perdesse a paciência deveria pregar um prego na cerca dos fundos da casa. No primeiro dia foram trinta e sete, mas com o tempo foram diminuindo, pois ele foi percebendo que era melhor controlar os impulsos do que pregar pregos. Até que chegou o dia em que, orgulhoso, relatou ao pai que não precisava mais pregar, pois aprendera a controlar-se.

O pai então lhe disse para retirar, a cada dia, um prego sempre que se mantivesse controlado. Após um tempo, o jovem informou ao pai de sua grande vitória: não havia mais pregos a retirar. O pai sorriu, mas convidou o filho a acompanhá-lo aos fundos da casa. Enquanto ambos olhavam para a cerca, o pai perguntou:
“e agora o que você vai fazer para apagar as marcas deixadas pelos pregos?”

Palavras sempre deixam marcas, e às vezes não nos orgulhamos delas.
Sempre é melhor contar até dez.


Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.
Todos os direitos reservados.
Visite o site da revista:
www.revistavidasimples.com.br

Fonte:
http://www.sapiensapiens.com.br/index.asp?id=4&em=3&emsub=5&art=16
Adriana Adriano : ) Coach-SP

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