sexta-feira, 1 de agosto de 2008

41- A MONTANHA RUSSA E O TRANSTORNO BIPOLAR

Fortes emoções e nenhum tédio. Ele reza pedindo a Deus que tenha uma manhã calma após ela acordar. Reza para que em sua vida tenha um dia normal, como qualquer casal normal, com sua companheira.Faz isto por que não sabe como sua esposa irá acordar. O humor dela é totalmente instável. A esposa pode acordar irada e quebrar toda a casa; pode acordar querendo ir às compras e gastar novamente muito mais do que o orçamento do casal permite; pode acordar deprimida e querer ficar apática ao próprio marido e ausente até dos filhos. Ele reza pedindo apenas um dia comum como qualquer outra pessoa. Reza por que nessa montanha russa de vida tais fatos tornaram-se rotina. Do alto ao baixo em segundos. O que vale é o humor instável, o inexato, o imprevisível, o absurdo, o ilógico. Para a família, resta rezar e pedir um dia de paz.

A instabilidade apresentada neste artigo faz parte da sintomatologia de uma patologia chamada transtorno bipolar. Particularmente o nome não faz jus ao que a doença promove em um indivíduo. Mais que ciclos polares a temática vivenciada por um portador de tal transtorno vai muito além que ciclos limitados entre extremos polares.

Antigamente conhecida por psicose-maníaco-depressiva a patologia se traduz em ciclos de psicose - ausência parcial da realidade com pequenos delírios e idéias fixas; fazes de mania - atualmente na moda na maior parte da população enquanto estilo de vida que se caracteriza em ciclos de euforia e falta de limites, no qual o indivíduo acha que pode e deve tudo, desde que isso satisfaça seu prazer ou alivie uma ansiedade pré-existente; e a fase depressiva - na qual o indivíduo geralmente é diagnosticado e que representa uma tristeza profunda com intensa vontade de morrer, com tentativa de suicídio. Os três níveis se alternam sem uma seqüência lógica ou previsível, o que torna o quadro em um movimento patológico instável.

No passado o transtorno bipolar era visto como uma patologia grave, e a área de saúde muito pouco podia fazer pelo paciente. O indivíduo, com o tempo, era aposentado, isolado de sua família, internado, passando a viver em um sanatório considerado como um louco. O indivíduo deixava de produzir, trabalhar, perdendo inclusive todo o seu potencial criativo e social. Hoje, graças a Deus, isto vem mudando com os avanços da farmacologia e com novas técnicas psicoterápicas. Atualmente um portador de transtorno bipolar pode levar uma vida praticamente normal, com menos limitações que um diabético, por exemplo.

Para que o paciente conquiste esta melhora alguns processos devem ser conscientizados. O primeiro é que ele é portador de uma patologia crônica que gera um humor instável. Sendo crônica a doença, ele deve cuidar-se de uma forma especial, o que envolverá o uso de medicação por toda a sua vida. Em segundo lugar o paciente deverá passar por uma psicoterapia profunda visando a encontrar seu equilíbrio, conhecer seus ciclos de humor, o que o deixa instável e aprender a lidar com sua ansiedade, com suas frustrações e com as limitações inerentes à vida. Se um paciente se cuidar, pode levar uma vida praticamente normal. Já atendi médicos, juristas, publicitários, pessoas de todas as classes sociais e profissões, portadoras do transtorno bipolar. E elas passaram a levar uma vida bem mais equilibrada após conscientizarem-se do cuidado com a própria saúde.

Mas o problema do transtorno bipolar é que a maior parte dos pacientes não adere ao tratamento, especialmente o medicamentoso. Numa fase maníaca, achando-se super-herói, em geral abandonam o tratamento e a crise torna-se uma bomba-relógio, programada para explodir a qualquer momento. Neste ciclo inconstante quem mais sofre é a família e as pessoas que convivem de perto com o paciente. Em um humor instável, fica difícil o convívio.

Outro fator complicado do transtorno bipolar é a inexatidão diagnóstica, que hoje em dia é comum devido ao péssimo preparo de profissionais de saúde. Erros de diagnóstico são freqüentes neste tipo de quadro. Se o paciente estiver em uma fase psicótica, em geral vão lhe atribuir o diagnóstico de esquizofrenia; se estiver em uma fase maníaca, podem lhe atribuir o diagnóstico de transtorno de ansiedade; e se estiver numa fase depressiva, o diagnóstico pode ser de depressão.

É comum, na maior parte dos casos, iniciarem o tratamento após uma crise de agressividade ou após uma tentativa de suicídio, depois de uma crise aguda de depressão. Também é comum que o paciente seja diagnosticado com exatidão só 4 anos após a primeira crise, o que, estatisticamente, comprova a inexatidão do diagnóstico.



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